Difícil definir o meu objeto de pesquisa, mas conseguir chegar a ele. Círio de Nazaré: a dança de vários corpos. Com o objeto já definido, agora começo a explorá-lo. Já estive presente, participando da procissão do Círio em outras oportunidades, mas o Círio deste ano, que foi no dia dez de Outubro de dois mil e dez, foi diferente. Pois este ano além de acompanhar como romeira, acrescentei minha observação como pesquisadora.
Início da minha pesquisa de campo foi acordar às três horas da madrugada do domingo, para prepara-me para ir rumo ao campo onde se encontrava o meu objeto de pesquisa. Cheguei ao final da Rua Visconde de Sousa Franco, junto com vários romeiros, andando descalços, outros carregando velas, tijolos, replicas de casas, terços entre outros objetos.
Chegando a curva da Rua Presidente Vargas, parei em frente ao cordão de isolamento composto por homens do exercito, em que alguns estavam falando: “acesso a corda, só quem estiver descalço”. Em frente à ponta esquerda do cordão estava formando um aglomerado, na qual só poderia passar um a um para que o soldado verificasse se os romeiros estavam realmente descalços. Passando por essa parte, encontravam-se várias pessoas, corpos deitados no chão, nas calçadas, dormindo, descansando de cabeça baixa, na tentativa de guardar e garantir um lugar na corda ou na estação.
Eu estava à uma hora esperando que a procissão começasse e ainda não tinha encontrado um lugar na corda, mas parei ao lado da terceira estação para que quando a procissão iniciasse tentasse me encaixar. Ouvindo pelo rádio dos portes o início da missa na Catedral, e a saída da berlinda. A queima de fogos próximo ao Ver- o - Peso começaram, isso é sinal de que a berlinda está perto de ser atrelada e a corda já é levantada, cada pessoa tentando manter sua mão no local em que guardava.
Começa o vai e vem da corda, os corpos sendo jogados pra lá e pra cá, como uma onda que bate na beira da praia. Um desequilíbrio que é equilibrado, com corpos do lado esquerdo e direito da corda. Tudo isso e a corda ainda nem tinha começado a andar. Depois de uns quinze minutos assim, a corda começou a andar de fato, eu me encontrava ao lado da corda, ainda não tinha conseguido me encaixar nela, acompanhei por certo tempo assim e quando chegou em frente ao prédio do O Liberal foi que um homem perguntou-me se eu queria entrar? E eu disse que sim e ele falou: “fica ai, que quando de eu vou empurrar ele e você vai ter que entrar por debaixo do meu braço e te encaixar logo”, continuei acompanhando ao lado dele.
“Agora! Te encaixa e segura na corda”, disse o homem, eu consegui entra e me encaixar, mas não foi por muito tempo fiquei apenas dez minutos. Meu corpo sentiu o impacto, como se tivesse sendo esmagado bem devagar, como se todas as minhas costelas fossem quebrar, uma sensação de satisfação, desespero, agonia, angústia, desconforto tudo ao mesmo tempo. Em fim, falei que ia sair. E o mesmo homem falou: “É assim mesmo, sai respira, depois você voltar e ficar mais dez minutos e assim você vai até o final”. Fiquei acompanhando ao lado, ajudando quem estava na corda, dando água, puxando, empurrando. Um dos momentos crítico na terceira estação a curva da Presidente Vargas, a corda estava indo para a vala, vários braços se entrelaçaram nesse momento, mãos das com apertos firmes,
pedidos de água, pés tentando se equilibrar, se manterem firmes e ao mesmo tempo tentando avançar. Passado essa curva consegui entrar novamente na corda mais dessa vez fique por muito mais tempo. Agora parecia que meu corpo já estava “acostumado”, sensação difícil de explicar é uma mistura de alegria, dor, realização, conforto, alívio. Quando chegou próximo ao ICA na Praça da República, sai da corda.
E fiquei observando a mistura de expressões que podem ser encontrada em uma mesma pessoa ou em pessoas diferente como dor, alegria, persistência, insistência, fé, satisfação, agradecimento, fraqueza. O entusiasmo no qual os romeiros cantam, rezam, pedem, agradecem, levantam a corda sacudindo e cantando: “nossa senhora, pode esperar a sua corda vai chegar...”. A dificuldade para a corda andar, no qual se dar três passos para traz e um para frente e assim vão seguindo até o final da procissão.
Fonte: AE
Fonte: Desconhecida
Próximo do final da Presidente Vargas entrei na corda outra vez, mas passei menos de cinco minutos não tinha me atentado entrei na frente de uma pessoa mais alta que eu e o encaixe de nossos corpos não aconteceu, tive que sair pois estava desconfortável e incomodando tanto meu corpo quanto o da outra pessoa. Mas um pouco mais a frente consegui entrar, utilizando a mesma técnica, o encaixe estava perfeito e ali fiquei durante um bom tempo.
Na curva da Avenida Nazaré novamente momentos críticos a corda estava “enrolando” e jogando para a direita, novamente empurrões, puxões, mãos e braços entrelaçados, passou esse momento e os romeiros da corda deram uma avançada que pareciam que estavam correndo. Momento que parecia flutuar tantos pés realizando o mesmo passo sem que um pisasse no pé do outro. Inexplicável! Volta ao momento crítico, várias expressões de dor, com falta de ar, eu não agüentei mais não estava conseguindo respirar, cheguei até a ficar sentada em cima da corda, por alguns instantes não pisei mais no chão, estava muito apertado e acabei saindo.
Continuei acompanhado ao lado dar corda até o momento em que cortaram, se transformando em vários pedacinhos como se fosse um troféu, recompensa ou apenas um objeto para ser guardado de lembrança.